Made in China.

Ontem (29/05/2015) o cientista político Mauricio Santoro, professor do Departamento de Relações Internacionais da Uerj deu uma entrevista pra revista VALOR falando sobre os recentes acordos entre a China e o Brasil.

Eu gostei muito da entrevista, aliás, as análises do professor Mauricio são sempre muito boas. É altamente recomendável segui-lo nas redes sociais para poder acompanhar suas reflexões. Nesse caso o professor ponderou sobre os pontos positivos e negativos dessa parceria.

A chamada da matéria é “A China é megafone para a política externa brasileira”. Para o professor Mauricio o grande destaque da parceria (além do socorro imediato de R$ 250 Bilhões, um alívio para setores importantes da economia brasileira, incluindo setores afetados pela famigerada operação lava jato) diz respeito as relações internacionais. O Professor ressalta que a associação com a China e os Brics é importante para o Brasil “porque é um grande megafone para a política externa brasileira. Falando junto com a China, as posições brasileiras, por exemplo, sobre a reforma das organizações econômicas internacionais, ganham dimensão que não teriam se o Brasil estivesse falando sozinho”. Concordo. O 1º mandato de Dilma Rousseff, embora tendo mantido a mesma orientação geral de política externa do governo Lula, não atuou com o mesmo brilhantismo na área. Como destacou o ex-ministro Celso Amorim em entrevista para a Carta Maior em Abril desse ano: “Com isso, eu não diria que houve uma descontinuidade em termos de política, houve talvez uma mudança de intensidade, ditada por fatores ligados ao momento atual”. Esta é uma questão sensível, isto é, teria havido uma remodelação do jogo internacional ou então a 1ª gestão da Presidenta ficou muito preocupada com questões internas ou a política externa foi simplesmente um fracasso ou uma mistura desses fatores? Embora eu tenda a ver com maus olhos a atuação do governo de Dilma nesse setor no 1º mandato, reconheço que o BRICS e o NBD são coisas finas, elegantes e sinceras.

Logo depois dessa chamada otimista (otimista demais pra sempre apocalíptica VALOR) tudo volta ao normal, ou seja, a hecatombe: “O Brasil está mal preparado para lidar com uma China que nas próximas décadas, se tornará um dos centros mais influentes da geopolítica mundial”. Brincadeiras à parte, particularmente, achei bastante razoável as críticas e o tom das críticas a parceria. Da Carta capital (com reportagem de capa “negócios da China) até o Painel Globo News (com o Paulo Skaf e o Luis Gonzaga Belluzo) indicou-se o mesmo problema, qual seja, o Brasil não tem um “plano China”. O Brasil não conhece a China. Não conhece a sua História, mal conhece os seus arranjos econômicos (Deng Xiaoping é um ilustre desconhecido), não conhece as disputas intelectuais e políticas que estão acontecendo neste exato momento no gigante asiático (A China e seus intelectuais estão preocupadíssimos com um possível “terremoto democrático” e tentam antecipar o problema, apresentando soluções como a Democracia consultiva do município de Chongqing que se inspira na “polling democracy” de James Fishkin, que em breve será assunto de um outro post). Em suma, quando o assunto é a China todos somos palpiteiros. A academia, os empresários, os políticos. Todos.

O problema é maior. A China não se tornará um dos centros mais influentes da geopolítica mundial, ao contrário, ela já é. A China está envolvida em questões sensíveis da geopolítica, a saber, sua crescente influência econômica no continente Africano, suas relações turbulentas com Hong Kong e Taiwan, suas proximidades com nações mal vistas pelo ocidente como, por exemplo, a Rússia e a Coreia do Norte e etc e etc. O problema é maior. Precisamos começar a estudar hoje mesmo a China. Precisamos de uma força tarefa que reúna diversos setores da sociedade civil brasileira para correr atrás desse prejuízo enorme. Para saber o que queremos da China, precisamos saber o que a China é hoje. Precisamos enterrar nossa visão estereotipada. Seria uma tarefa gigantesca entre universidades, setores públicos e privados e etc. A minha pergunta é: Como fazer isso se nós não nos interessamos pela China? se nós estamos tão apaixonados pelos nossos próprios paradigmas que não podemos deixá-los de lado, ao menos, enquanto estudamos algo de novo? como fazer isso com a atual situação política? como fazer isso com a democracia pedindo sufoco? como fazer isso se não temos um projeto de país? como saber o que o Brasil quer da China se não sabemos o que o Brasil quer de si mesmo?

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